Projeto Bioma Virtual – revendo o conceito de ambiente de aprendizagem

Lenise Garcia e Marcelo Ximenes Bizerril

[OBS – resgato aqui um texto publicado em 2003, quando ninguém ainda pensava em “redes sociais” do tipo Facebook, mas elas já estavam em germe nas chamadas “comunidades virtuais”. Preciso fazer uma releitura e atualizar, mas antes fica o resgate do texto original. O projeto foi descontinuado depois de alguns anos, com mudanças no CEAD e a minha dedicação à Licenciatura em Biologia à Distância, que me deixou sem tempo para os projetos de extensão, entre eles este]

 

Palavras-chave

Ambientes de aprendizagem; aprendizagem colaborativa; educação ambiental.

1. Introdução

O termo “ambiente de aprendizagem” ou “ambiente virtual de aprendizagem” tem sido com freqüência utilizado para designar um conjunto de ferramentas disponíveis na Internet para a ministração de cursos e correlatos. Também se usa a expressão “plataforma” para designar esse conjunto.

“Ambiente”, entretanto, parece-nos um termo que designa muito mais do que isso. Ao propor um “ambiente virtual” voltado para a Educação Ambiental, que permitisse troca de informações e experiências visando a formação continuada de educadores, pensamos em fazer uma reflexão mais ampla sobre o sentido da palavra “ambiente” que acabou por levar-nos a designar o projeto que agora apresentamos como “Bioma Virtual”.

Na nossa proposta, o conceito de “ambiente de aprendizagem” transcende o mero conjunto de ferramentas para vir a designar toda a complexa rede de pessoas e relações que se estabelecem com o seu uso. Fazemos uma correlação entre as definições ecológicas de “ambiente” e “comunidade” e o emprego que esses termos têm recebido no contexto da Educação a Distância (Schwier, 1999)

Comunidades virtuais já foram comparadas a “uma orquestra sendo conduzida sem um condutor” (Kogut and Prusak, 2001). Como elas estabelecem os seus próprios ritmos? Os equilíbrios são bastante similares aos que conhecemos no contexto ecológico. Isso vem sendo aplicado em outros contextos da Internet, Por exemplo, Forsythe (1999) usou regras ecológicas para analisar o uso da web.

O “Bioma Virtual” surgiu como forma de apresentar um espaço virtual para a aprendizagem colaborativa em Educação Ambiental. Não se trata de apresentar um pacote pronto, mas possibilitar que cada sujeito possa participar da construção e da gestão do espaço, possibilitando o crescimento individual.

Pode ser feito um interessante paralelo entre as interações que acontecem no ambiente natural e humano – objeto da Educação Ambiental – e no ambiente virtual, que pode ser veículo dessa educação. Poderíamos dizer que a interação entre as pessoas no ambiente virtual constitui de algum modo um “bioma virtual”, com inter-relações que propiciam o equilíbrio entre diferentes enfoques, a diversidade e a aprendizagem colaborativa. Cada educador traz as suas próprias experiências e vivências, particularmente ricas quando temos a presença de pessoas das mais variadas áreas, como é o caso quando se trata de Educação Ambiental.

2. Relações entre comunidades ecológicas e virtuais

Bioma é um conceito ecológico usado para definir extensas áreas geográficas com certa uniformidade de paisagem, composição de espécies e clima. Assim, em escala global, as savanas, florestas tropicais, florestas temperadas, desertos, tundras são exemplos de biomas. Em menor escala  podemos identificar os biomas brasileiros que são a floresta amazônica, o cerrado, a caatinga, a mata atlântica, o pantanal e os campos meridionais ou sulinos. O conceito de bioma, então, inclui toda a complexidade das relações ecológicas existentes em determinada área entre os organismos e o meio.

Portanto, o nome bioma não foi escolhido ao acaso para este projeto. Na verdade, é possível traçar uma série de paralelos entre conceitos ecológicos e aspectos observados nos processos de aprendizagem colaborativa entre os sujeitos que participam das “comunidades virtuais”. Neste texto, trataremos de “jogar” com conceitos teóricos da ecologia, utilizando-os para ilustrar relações observadas nos ambientes virtuais de aprendizagem.

Inúmeros processos compõem o metabolismo de um ecossistema natural. Consideraremos, para fins desta análise, três conjuntos destes processos:

– as relações dos organismos com os fatores físicos estruturais;

– as características particulares de cada espécie e as interações que sofrem entre si;       – o papel de cada espécie na estrutura da comunidade e sua importância na manutenção da biodiversidade.

2.1. A relação entre os organismos e o meio

O meio físico ou não-vivo, ou ainda abiótico, é de fundamental importância para a vida dos organismos. Fazem parte do meio físico, elementos como a água, o solo e a energia luminosa do sol. Sem esses elementos, a vida não é possível. Alterações no meio físico fatalmente levam a efeitos nos organismos (Odum, 1988).

Contudo, apenas a existência do meio físico não define o ambiente. A ação dos organismos é que molda o ambiente físico nas mais variadas e impensáveis maneiras. A atividade de grupos de organismos distintos sobre meios semelhantes leva a ambientes também distintos.

No “Bioma Virtual”, podemos considerar que o meio físico é representado pelas ferramentas disponibilizadas na Internet, que permitem a interação: sites, fóruns, listas de discussão. No nosso caso, a “plataforma” da UnB Virtual, com os seus recursos.

É muito freqüente que esse conjunto de instrumentos seja denominado “ambiente de aprendizagem”. No nosso entender, ele apenas dá a base física, sendo o mais importante do ambiente definido pelos participantes. Não negamos com isso, entretanto, a sua importância: como nos biomas naturais, ele tem o seu papel, modifica a comunidade e é modificado por ela.

Um conjunto inadequado de ferramentas propicia um “meio físico” pobre, quase com certeza destinado a ser um deserto. Haverá poucos participantes e poucas interações. Já um bom conjunto de ferramentas constitui um solo rico, mas não necessariamente habitado. Tudo dependerá dos “organismos” que o povoem, da atuação dos diversos participantes.

2.2. As interações entre as espécies

Espécies atuam e modificam não apenas o meio físico, mas também exercem influências sobre comportamentos, adaptações e na própria permanência de outras espécies no mesmo local.

Ricklefs (1996) classifica as interações ecológicas em três grupos principais: competição, mutualismos e relações entre consumidores e recursos.

A relação entre consumidor e recurso mais conhecida é entre predadores e presas. Um predador pode ser tanto especialista quanto generalista. No primeiro caso, apresenta dieta restrita a determinado grupo de presas, não se interessando ou não sendo hábil para utilizar outras presas. No segundo caso, utiliza uma gama variada de presas, dependendo da oferta das mesmas no ambiente. As populações de predadores e presas tendem a se auto-regular mantendo uma certa estabilidade no número de indivíduos. O processo funciona mais ou menos assim: o excesso de presas facilita a ação pelos predadores que tem facilidade em alimentar-se e reproduzir-se, aumentando assim sua população; porém, o excesso de predadores passa a exercer grande pressão sobre as presas que tem sua população diminuída, o que, com o tempo, leva à diminuição da população de predadores. Forma-se, assim, um equilíbrio dinâmico.

Os mutualismos se dão de formas variadas, mas sempre significam ganhos para as duas partes envolvidas na interação. Às vezes, uma interação possibilita benefícios a uma parte, mas a outra nada sofre. Esta relação é dita comensalismo.

Finalmente a competição é a interação ecológica que ocorre quando duas partes disputam um recurso escasso (pois se o recurso for abundante, não haverá competição). Considera-se que ambos perdem de alguma forma com a competição, mesmo que aparentemente um pareça ser o vitorioso. A competição pode resultar em seleção de certas características das espécies, mas em alguns casos leva até a eliminação do competidor menos apto.

Não é difícil perceber que essas características e interações acontecem também nas comunidades humanas. Naturalmente, estamos falando de modo analógico, dado o fato de que os seres humanos têm maiores possibilidades de modificar as suas relações. Nossas escolhas podem favorecer o equilíbrio, mas também o desequilíbrio, como podemos perceber em tantas relações humanas com a natureza.

O interessante é observar que sempre se tende a equilíbrios dinâmicos, característicos da comunidade, que tem uma estabilidade própria e ao mesmo tempo vai sendo modificada gradativamente.

No ambiente virtual esses equilíbrios também vão sendo atingidos. Cada comunidade possui membros mais ou menos ativos, uma freqüência de mensagens trocadas, de participação nos fóruns e bate-papos etc. Algumas comparações que podemos fazer são as seguintes:

Predadores e presas

A relação predador/presa se caracteriza por um equilíbrio numérico. Por analogia, poderíamos aplicá-la ao número de mensagens diárias que circulam em uma lista de discussões e as pessoas que participam.

[Chamamos a atenção para o fato de estarmos considerando aqui, como “predador”, não pessoas concretas, mas as mensagens, seja quem for que as envie; as “presas” são os membros da comunidade].

Observando em um prazo longo, percebemos que cada comunidade tende a ter um número médio de mensagens diárias [que varia bastante de uma comunidade para outra]. Há oscilações em torno da média, que parecem ocorrer do seguinte modo:

Há momentos de “pico”, por motivos variados: um assunto polêmico ou de interesse de vários membros, membros com maior disponibilidade de tempo (um feriado, por exemplo) etc. Quando o número de mensagens sobe, naturalmente gasta-se mais tempo para lê-las. Alguns membros deixarão de escrever, pois apenas ler toma todo o seu tempo disponível; outros não conseguirão sequer isso, e mensagens não lidas vão-se acumulando ou sendo deletadas. Com freqüência um grupo de pessoas deixa mesmo de recebê-las, por ficar com a caixa lotada. A conversa tende a concentrar-se apenas nos membros mais ativos naquele momento.

Depois de algum tempo, mesmo estes membros mais ativos começam a mandar menos mensagens. O número diário vai caindo, e mais pessoas voltam a conseguir acompanhar a discussão. Aos poucos a sua participação cresce, e com ela o número de mensagens. Pode-se ter um novo pico. O número de mensagens oscila, assim, subindo e descendo em torno da média.

Mutualismos

A cooperação é o principal fator para a existência das comunidades virtuais e a sua permanência. Trocas de informações e idéias que são proveitosas para todos, aprendizagem colaborativa, são a própria razão de ser, em geral, da comunidade.

Cooperação nem sempre significa concordância. A apresentação de diferentes pontos de vista é enriquecedora, desde que se mantenha um ambiente de respeito (comentaremos sobre isto mais adiante).

As comunidades virtuais costumam também ter membros “comensais”, os chamados “lurkers”, que são pessoas que apenas lêem as mensagens e raramente – ou nunca – participam das discussões. Usufruem, sem contribuir diretamente, embora um número grande de leitores seja em geral sinal da vitalidade de uma comunidade. Na verdade, em comunidades numerosas é necessário que muitos membros se comportem assim. Em caso contrário, o excesso de mensagens acabaria sendo prejudicial.

Competição

Um recurso normalmente escasso é o tempo. Como o tempo de cada um é “disputado”, em comunidades virtuais?

Uma competição ocorre entre os diferentes assuntos em debate. O normal, em uma comunidade ativa, é que várias temáticas sejam tratadas paralelamente e novos temas sejam constantemente introduzidos. Uma discussão que desperte maior interesse tende a “sufocar” as demais discussões que estavam ocorrendo. Assuntos são abandonados por pura falta de tempo, sem que isso signifique um desinteresse por eles. Em outro momento, podem voltar a ser discutidos pela comunidade.

Dentro dessa competição, é normal que muitas mensagens fiquem sem resposta, o que não significa que não tenham sido lidas ou mesmo valorizadas.

Com freqüência o recurso tempo é disputado também por diferentes comunidades, quando há membros que participam de várias. Dependendo dos assuntos, afinidades etc, a pessoa será mais participativa em uma ou outra comunidade.

É importante salientar que raramente o tempo dedicado à interação virtual é fixo. Assim, um assunto realmente interessante ou interações significativas podem fazer com que os membros da comunidade roubem tempo a outras atividades do seu cotidiano para participar de discussões. Não é raro, por exemplo, que dediquem horas da noite a ler e enviar mensagens.

2.3. O papel da biodiversidade

Biodiversidade é um conceito amplo relacionado à variedade de espécies, mas também considera a variedade genética, de habitats e de interações (v. Wilson, 1997).

Existem ambientes de maior e menor diversidade. Muitos são os fatores que podem influenciar a diversidade. É aceito que a conveniência das condições físicas e a variabilidade espacial contribuem para o maior número de espécies (Ricklefs, 1996). Isto quer dizer que locais com clima favorável e maiores possibilidades de usos pelos organismos geralmente abrigariam mais espécies.

Cada espécie está relacionada a um nicho ecológico que, de modo simplificado, pode ser entendido como o conjunto de interações das quais o organismo faz parte, em suma, o papel deste na comunidade. Quando nichos são sobrepostos, as espécies competem, o que pode levar a extinção de uma delas. Mas a dinâmica da natureza possibilita que a extinção seja gradativamente compensada com o surgimento de novas espécies (Odum, 1988).

Um dos temas mais interessantes associados à biodiversidade é a capacidade da natureza de se auto-regenerar ou ainda de formar novas comunidades complexas a partir de quase nada. Este processo é chamado de sucessão ecológica. Uma duna, a neve que derrete expondo o solo, ou uma área destruída pelas lavas de um vulcão, gradativamente vão sendo ocupadas por espécies, que com o passar do tempo dão lugar a outras espécies até que, se não houver outra perturbação tão grande, darão origem a uma comunidade ecológica complexa. Não é preciso ir tão longe. Uma área desmatada ou até mesmo urbana, mas que ofereça condições mínimas para o estabelecimento da vida, gradativamente é ocupada por plantas e animais.

As espécies iniciais no processo de sucessão são ditas pioneiras e as típicas do final do processo (por exemplo, uma floresta madura) são ditas clímax. O curioso é que no decorrer do processo as espécies clímax vão dominando o ambiente e modificando as suas características dificultando e até impossibilitando a permanência das espécies pioneiras. Estudos têm demonstrado que algumas perturbações pontuais podem ser importantes para a manutenção da diversidade, uma vez que reiniciam pequenos processos de sucessão (Ricklefs, 1996).

Analogamente, a diversidade entre os membros de uma comunidade virtual constitui uma das suas riquezas.

As comunidades possuem pessoas mais generalistas, interessadas em todos os assuntos que são tratados pelos demais membros. Outras pessoas entram na comunidade com interesses bastante específicos, participando ou mesmo lendo apenas quando aquele assunto está em pauta. Podemos ter pessoas com perfis profissionais e áreas de interesse muito diferenciados participando da comunidade.

Outra fonte de diversidade é a experiência, relacionada também com a idade. Podem conviver no mesmo “espaço virtual” estudantes em diversas fases de seu desenvolvimento e profissionais experientes. Cada um contribui de modo diverso para a interação.

A interação virtual permite uma enorme diversidade na procedência dos membros. Pessoas de diferentes estados ou mesmo países podem compor uma comunidade. Tudo isso contribui para a riqueza das discussões.

No referente à sucessão ecológica, sabemos que os membros que iniciam uma comunidade tem uma grande influência sobre o seu perfil. São eles que estabelecem as regras explícitas ou implícitas do relacionamento do grupo, assuntos preferenciais etc. Os membros que vão entrando posteriormente podem adaptar-se ou não a esse perfil. Em geral, se não se adaptam, deixam a comunidade. Mas existe também uma “evolução conjunta”, pois cada membro que entra também altera um pouquinho a comunidade.

3. Perspectivas para o projeto Bioma

O Bioma Virtual está no ar desde abril de 2003, no site da UnB Virtual (da Universidade de Brasília) [http://www.unbvirtual.unb.br]. Sem ter sido feita nenhuma divulgação sistemática, o bioma já conta com participantes de 16 estados de todas as regiões brasileiras. A lista de participantes é composta por professores, estudantes, advogados e ambientalistas de modo geral.

O fórum permanente de discussões, textos de apoio e o mecanismo para sugestão de links são os elementos mais utilizados no site. Contudo, é a lista de discussão que, nesse momento inicial, tem mais estimulado a participação dos membros, com debates interessantes sobre transgênicos, interdisciplinaridade e educação ambiental, além de propiciar trocas de experiências e encontros entre os educadores.

As perspectivas são de envolver cada vez mais participantes com um esforço de divulgação mais sistemático, e iniciar a oferta de cursos de extensão de curta duração cujos temas serão selecionados a partir da demanda dos próprios participantes. No entanto, a própria concepção do bioma não permite um planejamento muito rígido das ações futuras, uma vez que a proposta consiste em uma gestão participativa desse ambiente de aprendizagem.

4. Referências bibliográficas

Forsythe, C. An ecological model of web usage. Internetworking. 1999

Disponível em: http://www.internettg.org/newsletter/dec99/ecological_design.html

Acesso em 29/05/2003

Kogut, B. & Prusak, L. How Virtual Communities Enhance Knowledge.

2001. Disponível em: http://knowledge.wharton.upenn.edu/

Acesso em 29/05/2003

Odum, E.P. Ecologia. Editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1988.

Ricklefs, R.E. Economia da Natureza. Editora Guanabara Koogan, 3ª edição, Rio de Janeiro, 1996, 470p.

Schwier, R.A. Turning learning environments into learning communities: Expanding the notion of interaction in multimedia. Proceedings of the World Conference on Educational Multimedia, Hypermedia and Telecommunications, Seattle, Washington: Association for the Advancement of Computers in Education, June 23, 1999..

Wilson, E.O.(Ed.). Biodiversidade. Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro-RJ, 1997, 657p.

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