Caríssima GRNOPC1

Escrevo para comentar as suas últimas aparições na mídia, e dizer-lhe que você não fracassou. Pelo contrário, foi muito melhor assim. Mas antes quero pedir desculpas caso devesse escrever “caríssimo”, pois não sei se você é um menino ou uma menina. Na verdade, não sei nem mesmo se isso foi divulgado. Opto pelo feminino por combinar também com “célula”, sem saber se os seus cromossomos são XX ou XY, se você poderia ter sido batizada como Maria ou como João, caso lhe permitissem prosseguir o seu desenvolvimento.

Peço perdão, também, por te chamar por este único nome que você recebeu, GRNOPC1, que eu considero degradante. Mas sei que você já deve estar acostumada, e assim podemos nos entender.

Esclareço, ainda, que te chamo “caríssima” no sentido mais nobre e humano que essa palavra pode ter. Você me é muito cara, querida, como todas as suas irmãs que se encontram na mais absurda situação em que pode se encontrar um ser humano: congelado em nitrogênio líquido, ou sendo sacrificado em experimentos científicos. Caríssima GRNOPC1, nenhum de vocês merece isso, e penso que é nosso dever clamar bem alto para que cesse essa injustiça.

Sabe, não é nesse mesmo sentido que a Geron te considera “caríssima”. O problema é que você e suas irmãs custaram uma nota preta, mas não estão dando o esperado retorno… financeiro. É por isso que a Geron está desistindo de vocês, porque descobriu que não serão tão lucrativas como os investidores estão exigindo.

Mas, como disse de início, você não deve se considerar uma fracassada. A sua vocação não era ser um remendo celular na coluna de outro indivíduo, mas ser você mesma, desenvolver as suas potencialidades, amar e ser amada.

Deixe para as células-tronco adultas a função de solucionar problemas de saúde. Talvez não sejam tão lucrativas, pois são retiradas de cada indivíduo, e portanto não se transformam em um produto comercial. Mas são muito mais eficientes para proporcionar curas.

GRNOPC1, que o seu sacrifício não tenha sido em vão. Que sirva para as pessoas refletirem que só experimentos éticos contribuem efetivamente para o desenvolvimento científico.

E que você possa descansar em paz.

Com carinho,

Lenise

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Células-tronco e mídias sociais

Hoje o Jornal da CBN fez uma interessante entrevista com o Dr. Ricardo Ribeiro, coordenador da Pesquisa Experimental do Hospital São Rafael em Salvador e do Centro de Biotecnologia e Terapia Celular, sobre o tratamento experimental com células-tronco de medula óssea que levou um paraplégico a voltar a ter sensibilidade nas pernas, fazer alguns movimentos, e recuperar controle dos esfíncteres, o que traz significativa melhora em sua qualidade de vida. Ouça, são 7 minutos muito instrutivos.

O início do tratamento experimental foi objeto de notícia no Jornal Nacional, que pode ser vista no site do Centro de Biotecnologia e Terapia Celular. No mesmo site, há abundante material explicativo, o que permite que a pessoa interessada, mesmo que não seja especialista na área, consiga entender o que são células-tronco e os diferentes tipos que existem.

Isso torna ainda mais indesculpável a ignorância do jornalista Xexéo, como comentei ontem no blog do Brasil sem Aborto. Um jornalista tem a obrigação de ir às fontes e compreender a temática, antes de opinar. Ao não fazer isso, Xexéu fez comentários descabidos, que mostram grande preconceito em relação às religiões. Eu enviei diversas mensagens a respeito citando o Twitter do @jornaldacbn , mas não tive qualquer retorno da parte deles. Várias outras pessoas, entretanto, replicaram o assunto no Twitter e fizeram diferentes comentários. Outros blogs repercutiram, como o Deus lo Vult.

Por isso, achei muito curioso que hoje o programa em que participa o Xexéu tenha falado sobre mídias sociais. Pode ser pura coincidência, o assunto era totalmente outro, mas o Xexéu não me pareceu ser muito adepto do Twitter. Tenho consciência de que é preciso ter cuidado com o que dizemos nas redes sociais. E com o que um jornalista diz na rádio, não é preciso tomar cuidado?

No programa de ontem, Xexéu disse que “no Brasil muita gente acha que não deve ser feito, que não deve ser usado esse tipo de experiência… Para uma parte da sociedade, é como querer que não se faça transfusão de sangue… há religiões que não aceitam a transfusão de sangue, mas nem por isso alguém está pensando em proibir transfusão de sangue no Brasil… em relação às células-tronco deve ser a mesma coisa.”

Xexéu não tomou o cuidado básico de diferenciar entre células-tronco embrionárias, cujo uso é muito questionado por razões éticas, e células-tronco adultas, cujo uso sempre foi defendido pelas pessoas com perspectiva ética e religiosa, como explicitamos em 2008 na Declaração de Brasília sobre células-tronco. Quanto à transfusão de sangue, não tenho nada contra, desde que o sangue seja proveniente de doações voluntárias. Se alguém defender que se deve tirar todo o sangue de uma pessoa, levando-a à morte, para colocar esse sangue em outra, direi que isso não é ético, como não é ético matar um embrião para fazer experimentos, que aliás tem levado principalmente à obtenção de câncer em ratos.

Para contribuir para o entendimento de todas essas questões, vou falar sobre células-tronco em meu próximo programa Promovendo a Vida, na Rádio Maria, na 4a feira às 20h00. Para quem mora no Distrito Federal, 107,9 FM. E todos podem ouvir e interagir pela internet, também através do Twitter @vidarmb

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Novidades no programa “Promovendo a vida”, na Rádio Maria

No programa “Promovendo a vida” de hoje, vou inaugurar a sessão “Notícias da vida”, logo no início, às 20h00. Nessa sessão, pretendo trazer alguns fatos relevantes ocorridos durante a semana, no Brasil e no mundo, que digam respeito à defesa e promoção da vida.

Hoje, por exemplo, vou falar da nova constituição da Hungria, na qual se garantem os direitos desde a concepção. Falarei, também, sobre a descoberta de células-tronco no pulmão.

No plano nacional, vou comentar sobre o andamento de alguns projetos no Congresso Nacional, como a designação de relator para o Estatuto do Nascituro.

Há várias outras notícias, mas não vou colocar tudo aqui, porque senão perde a graça. Ouça-me às 20h00 na Rádio Maria, em Brasília 107,9 FM ou pela internet.

Outra novidade é que agora você também pode se comunicar conosco, para comentar, debater, pedir que se aborde algum assunto, pelo e-mail promovendoavidarmb@gmail.com ou pelo twitter http://twitter.com/vidarmb

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Promovendo a vida – programa na Rádio Maria

Hoje eu começo uma nova atividade, um novo desafio, na linha que venho desenvolvendo em favor da promoção da vida humana, da concepção à morte natural.

Vou coordenar um programa de rádio, na Rádio Maria, que aqui em Brasília e entorno está na FM 107,9. Também pode ser acessado pela internet no site da Rádio Maria. Chama-se PROMOVENDO A VIDA e será às quartas-feiras, das 20h00 às 21h30. Ao vivo, permitindo interação por telefone ou pelo chat da rádio. Em breve, também teremos e-mail e twitter para quem quiser interagir.

Ouça, participe, debata! Todos são bem-vindos!

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“Lá não tem nada, só cerrado!”

cerrado Pq Chapada dos veadeirosA frase, acreditem, é do Ministro da Agricultura, Wagner Rossi. Destacada pela Renata lo Prete, eu vi a citação no blog do Noblat:

Nadinha
Renata Lo Prete, O Globo

Wagner Rossi (Agricultura) causou espanto em reunião do “Conselhão”, anteontem, ao dizer que a expansão da fronteira agrícola para Maranhão, Tocantins , Piauí e oeste da Bahia não tem impacto ambiental nenhum. Isso porque, segundo o ministro, “lá não tem nada, só cerrado”.

Os comentários no blog também evidenciam a pouca compreensão que muitos brasileiros tem das questões ambientais. Penso que parte da culpa é dos ambientalistas – comento abaixo – mas, se é algo compreensível em pessoas pouco informadas, acho imperdoável para um Ministro de Estado. Não por acaso a discussão sobre o Código Florestal promete esquentar.

Há alguns anos, houve um debate acalorado e muito interessante no fórum online da disciplina Educação Ambiental Sustentável, que ministro pela internet na UnB. Um estudante fez uma observação sobre a “beleza da natureza”, e eu perguntei se a natureza deveria ser preservada porque era bela, ou se um bioma menos bonito, como o cerrado, também precisava ser preservado.

O debate esquentou, inclusive, questionando a colocação de que o cerrado não seja bonito, e devo dizer que também penso que há partes lindíssimas. Mas o fato é que o “marketing ambientalista” realmente mostra as “maravilhas” visuais da Amazônia e do Pantanal, e acaba passando a impressão de que esses biomas devem ser preservados porque são bonitos.

Então, sobra para o cerrado. Ele é hoje considerado um hotspot, uma das áreas do mundo em que é mais importante a preservação da biodiversidade.

Talvez seja bom oferecermos um curso de Educação Ambiental para o Ministério da Agricultura…

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Ratinhos com 2 pais machos. Onde chegaremos?

dois paisA notícia é do início de dezembro, mas somente hoje eu li, primeiro no site português publico e depois, em inglês, no Wired Science.

O artigo original foi publicado online, antes da publicação em papel, no dia 8 de dezembro:

Generation of Viable Male and Female Mice from Two Fathers” by Deng JM, Satoh K, Chang H, Zhang Z, Stewart MD, Wang H, Cooney AJ, Behringer RR.

A própria revista publicou também um comentário, no qual se questiona a utilidade do experimento:

Are there benefits from having two genetic fathers?. Os autores fazem várias perguntas interessantes, sem entretanto dar nenhuma resposta.

A tecnologia está baseada nas iPS, as células-tronco pluripotentes induzidas, tão promissoras em alguns aspectos, mas cujo domínio vem mostrando também um amplo panorama eticamente questionável para o seu uso.

Na verdade, experimentos como este eram esperados, e muito mais pode vir, na medida em que ganhamos grande domínio sobre as técnicas de reprodução e regulação gênica.

Cada vez mais, fica claro que os limites científicos serão facilmente ultrapassados, e que a reprodução humana somente não será totalmente manipulada, com pessoas “produzidas” a bel prazer de seus “elaboradores”, se forem impostos limites éticos. Caso contrário, cada vez será maior a distância entre o amor e a vida.

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Marrecos sem fronteiras

marreca migratóriaSempre tive curiosidade com animais migratórios. Por isso, achei muito interessante a notícia publicada ontem pela Folha, de um experimento em que um grupo de marrecos foi acompanhado pelo Google Earth, através de transmissores movidos a energia solar, e presos às patinhas dos animais. Vários se perderam pelo caminho [os animais, ou os transmissores], mas ganhou destaque uma marreca que voltou à China, local de início do experimento, depois de viajar 12 mil km.

Eu diria que a “casa” dela é na verdade a Sibéria, pois lá ela se reproduziu. Mas, ignorando fronteiras e crises internacionais, ela passou por Coréia, Rússia, Japão…

Entre outros, dois pontos a destacar neste experimento:

1. A tecnologia é simples e criativa, e certamente abre espaço para que sejam feitos muitos outros semelhantes.

2. Ele exemplifica de modo mais concreto algo que já sabíamos: que as questões ambientais não conhecem fronteiras, daí a grande importância de abordagens internacionais.

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